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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Dízimos e Ofertas. O que está certo e o que está errado?

Obs: as citações bíblicas estão na tradução Almeida Corrigida Fiel (ACF)

INTRODUÇÃO

Pretende-se com este estudo expor alguns pontos de debate sobre a doutrina cristã da contribuição. O objetivo é fortalecer e aprofundar o conhecimento dos leitores nas Escrituras Sagradas, evitando que eles contribuam por motivos errados. Inúmeras questões são levantadas sobre esse assunto e, até hoje, muitos não sabem ao certo qual a doutrina ensinada pelos apóstolos para a igreja. Concorda-se que exista para a igreja a Doutrina da Contribuição, mas será que existe a Doutrina dos dízimos e ofertas para os cristãos? 

Diversos estudos bíblicos estão disponíveis na Internet que falam sobre dízimos e ofertas. Alguns apoiando a ideia de que o cristão deve, obrigatoriamente, dar dez por cento (10%) de sua renda para a igreja e outros afirmando que não. Até onde os ensinamentos que se recebe, quer por meio de sermões, estudos, livros etc, estão coerentes com as regras de interpretação bíblica? Respeitando-se essas regras e, deixando de lado as tradições, emoções e indignações, que resultado se alcançará?

Foram por essas e por outras razões que este estudo foi escrito, com o intuito de averiguar os contextos e conferir escritura com escritura, para ver se, de fato, as coisas são assim como se afirmam.

Algumas perguntas foram escolhidas com o objetivo de se esclarecer essas dúvidas até o final deste estudo:

  1. Qual o conceito de dízimo na bíblia?
  2. Um cristão é obrigado a dar o dízimo?
  3. O dízimo é doutrina do Novo Testamento ou é uma tradição (dogma)?
  4. Tem que se dar 10% de tudo que se ganha, até mesmo da venda de um carro ou de um terreno?
  5. O dízimo é diferente de oferta?
  6. Qual o método de contribuição que o Novo Testamento ensina?


I – O CONCEITO BÍBLICO DO DÍZIMO

O primeiro ponto de problema para o correto entendimento da doutrina da contribuição é o conceito da palavra Dízimo. Faça uma experiência simples. Pergunte para qualquer pessoa, membro ou não de uma igreja, o que significa o dízimo. Normalmente a resposta é: “o dízimo é 10% do salário”. Até que ponto esse conceito está correto? Onde está escrito na Bíblia que o dízimo é 10% do salário? Detecta-se aqui o efeito da interpretação viciada já no entendimento da palavra dízimo. Em nenhum lugar da Bíblia encontra-se essa definição. Na realidade as pessoas aprenderam esse conceito por tradição.

A palavra dízimo, isoladamente, significa a “décima parte de alguma coisa”. Mas, no contexto bíblico, dízimo não era 10% do salário.

Alguns pregadores, para estabelecer esse conceito, afirmam que não existia dinheiro na época de Abraão e de Moisés, e por isso, eles davam o dízimo dos cereais e animais. Esse é um argumento falso! Veja alguns trechos na Bíblia que mostram que já existia dinheiro:

Gênesis 17:13: ““[Deus disse a Abraão:] Com efeito será circuncidado o nascido em tua casa, e o comprado por teu dinheiro; e estará a minha aliança na vossa carne por aliança perpétua”.

Em Deuteronômio 14:24-26 está escrito que se o caminho fosse longo demais e não fosse possível levar o dízimo das colheitas e dos animais, então tudo deveria ser vendido e convertido em dinheiro para facilitar a viagem. Quando se chegasse ao local apropriado de adoração, deveria ser convertido novamente em mantimentos e consumidos com alegria pela família, em sinal de adoração a Deus. Claramente se vê que o dízimo dos israelitas não era para ser entregue em dinheiro. É por causa dessa ordenança que os Judeus deturparam as coisas e transformaram as escadarias do templo em local de comércio. Jesus, irritado com aquilo, chamou os cambistas de ladrões e derrubou as mesas com os animais e mantimentos (Mateus 21:12-13).

Dando sequência ao mesmo texto de Deuteronômio, encontra-se a ordem de que, ao fim de cada terceiro ano, os dízimos do ano deveriam ser levados para a cidade e distribuídos entre os levitas, os peregrinos, os órfãos e as viúvas (Dt 14:28-29). Se alguns pregadores de hoje costumam apoiar suas argumentações do dízimo com tanta veemência em trechos do Antigo Testamento, por que descumprem textos subsequentes do contexto imediato? Até hoje, não há relatos de que alguma igreja recolha os dízimos do terceiro ano e os distribua em sua cidade para os viajantes, órfãos e viúvas.

Vejamos o conceito bíblico do DÍZIMO:

A décima parte, tanto das colheitas como dos animais, que os israelitas ofereciam a Deus (Lv 27.30-32). O dízimo era usado para o sustento dos LEVITAS (Nm 18.21-24), dos estrangeiros, dos órfãos e das viúvas (Dt 14.28-29).


II – O DÍZIMO É UMA OFERTA

Outro conceito bastante divulgado no meio evangélico é que: “dízimo é dízimo e oferta é oferta”, ou seja, a intenção é dizer que o dízimo é obrigatório e oferta é voluntária. Veja o que a Bíblia diz:

Números 18:24-26: “[Deus disse:] Porque os dízimos dos filhos de Israel, que oferecerem ao SENHOR em oferta alçada, tenho dado por herança aos levitas; porquanto eu lhes disse: No meio dos filhos de Israel nenhuma herança terão. E falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Também falarás aos levitas, e dir-lhes-ás: Quando receberdes os dízimos dos filhos de Israel, que eu deles vos tenho dado por vossa herança, deles oferecereis uma oferta alçada ao SENHOR, os dízimos dos dízimos”.

Uma oferta na Bíblia poderia ser obrigatória ou voluntária. Não era a palavra em si que determinava a voluntariedade. Deus era quem estipulava se a oferta era obrigatória ou voluntária. Hoje, essa diferença entre dízimo e oferta veio pela tradição, e nasceu com o intuito de se proteger a igreja da negligência dos dízimos. Alguém pregou no passado que “dízimo é dízimo e oferta é oferta” e então pegou. Até hoje as pessoas repetem esse refrão.


Resumo dos Sacrifícios e ofertas do Antigo Testamento:

Animais, cereais ou bebidas entregues a Deus como parte do culto de adoração. Em Levítico 1.1-7.21 são descritos estes cinco tipos principais de sacrifícios e ofertas:

1) Holocausto, em que o animal era completamente queimado no altar {Lv 1:1-17; 6:8-13}.

2) Oferta de manjares, isto é, de cereais {Lv 2:1-16; 6:14-23}.

3) Sacrifício pacífico ou de paz {Lv 3:1-17; 7:11-21}.

4) Oferta pelo pecado, isto é, para tirar pecados {Lv 4:1-5:13; 6:24-30}.

5) Oferta pela culpa, isto é, para tirar a culpa {Lv 5:14-6:7; 7:1-7}. Das ofertas de paz havia três tipos: por gratidão a Deus {Lv 7:12}, para pagar voto ou promessa {Lv 7:16} e a voluntária, que era trazida de livre e espontânea vontade {Lv 7:16}. Além dessas havia também a libação, tipo de oferta em que se derramava vinho {Lv 23:13}.


III - O DÍZIMO ANTES DA LEI ERA VOLUNTÁRIO

Antes da Lei, Abraão deu o dízimo dos despojos voluntariamente, pois não há referência bíblica que aponte para um mandamento explícito (Gênesis 14:18-20). Os despojos eram restos trazidos de uma guerra. No texto, os despojos eram pessoas (escravos) e bens (Gn 14:21). Também já foi mostrado que existia dinheiro nessa época (Gn 17:13).

Jacó também propôs dar o dízimo voluntariamente se Deus o abençoasse em sua missão. Ele teve um sonho onde lhe foi revelado o local especial de adoração e recebeu uma promessa de Deus. Em sinal de reconhecimento, fez um voto de edificar a casa de Deus e de dar-lhe o dízimo de tudo que recebesse (Gênesis 28:10-22).

Detecta-se nessas duas passagens analisadas que ouve uma motivação especial para a entrega dos dízimos. Essa motivação não foi forçada, mas foi um ato liberal numa demonstração de adoração, reverência e gratidão. Nas duas ocasiões ocorreram contatos com o elemento divino, um relacionamento espiritual. Abraão teve contato com um sacerdote de Deus que o abençoou. Por sua vez, Abraão reconheceu a importância do sacerdote e lhe retribuiu com os dízimos: “Considerai, pois, quão grande era este, a quem até o patriarca Abraão deu os dízimos dos despojos” (Hebreus 7:4).

Não é em vão que a Bíblia registra essas duas passagens sobre a dedicação de dízimos antes da Lei. Percebe-se que existiu um motivo adequado para que esses importantes personagens bíblicos fizessem isso. Com certeza não foi por obrigação nem por constrangimento.

Portanto, nos únicos dois textos que falam sobre dízimos antes da Lei de Moisés, dão sustentação ao argumento da voluntariedade na entrega dos dízimos.

Outro argumento bastante utilizado nos debates é de que Abraão praticou o dízimo antes da Lei e, por isso, os cristãos devem praticá-lo também. Deve-se ter cuidado com essa argumentação, visto que a circuncisão também foi instituída antes da Lei (Gn 17:9-14), nem por isso o apóstolo Paulo a defendeu. Pelo contrário, repreendeu os irmãos da Galácia do erro que eles estavam cometendo em querer forçar os cristãos a se circuncidarem (Gálatas cap.5). O mais interessante nisso, é que a circuncisão está explicitamente definida na Bíblia como uma lei antes da lei de Moisés; já o dízimo, não.


IV - NA LEI, O DÍZIMO ERA OBRIGATÓRIO.

Na Lei, Deus instituiu o dízimo como obrigatório por causa da tribo de Levi, pois ela não possuía herança em terras e, portanto, precisava ser sustentada pelas outras tribos com os mantimentos arrecadados. Por sua vez, os Levitas deveriam dar os dízimos dos dízimos em oferta ao Senhor.

Os judeus reconhecem que existem três tipos de dízimos:
1. O dízimo para os levitas (Nm 18:21-26)
2. O dízimo para as festividades em Jerusalém (Dt 14:22-26)
3. O dízimo de caridade para os estrangeiros, órfãos e viúvas (Dt 14:28-29).


V – CUIDADO COM MALAQUIAS 3:8-11.

O texto mais usado da Bíblia para argumentar a entrega dos dízimos e ofertas nas igrejas é Malaquias 3:8-11. Há um grande problema de interpretação e de aplicação desse texto nos púlpitos evangélicos. Normalmente são feitos apelos emocionais e pressões psicológicas aos fiéis. As mensagens possuem uma pressão psicológica embutida com recursos de acusação e medo. A plateia se vê ameaçada de maldição e acusada de roubar a Deus. Por outro lado são feitas promessas de abundância financeira com tanta veemência que enchem os olhos dos ouvintes. E o melhor do livro de Malaquias não é apresentado.

Deus, por três vezes, diz que não aceitaria as ofertas do povo (Ml 1:10; 1:13; 2:13). O culto era feito sem reverência e respeito. O que se pode observar na mensagem de Malaquias é que a conseqüência do declínio espiritual é refletida na falta de amor para o com próximo, nos divórcios, na infidelidade conjugal, na falsa adoração a Deus e na negligência no sustento do templo. O profeta está confirmando o que já havia sido dito na Lei de Moisés sobre as promessas de bênçãos e maldições condicionadas à fidelidade deles. Deus havia prometido o gafanhoto devorador caso eles não obedecessem (Deuteronômio 28). No final do Livro de Malaquias, no verso 4:4, o profeta diz: “Lembrai-vos da lei de Moisés, meu servo, que lhe mandei em Horebe para todo o Israel, a saber, estatutos e juízos”.

O apóstolo Paulo afirma que "Jesus nos redimiu das maldições da Lei quando se tornou maldição em nosso lugar" (Gálatas 3:13). Também que Jesus “Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz” (Colossenses 2:14) . A Bíblia é clara em afirmar que Jesus cravou na cruz toda a Lei de Moisés, e nisso, incluem os dízimos e ofertas. Mas alguns pregadores dão a entender em suas entrelinhas que a “Lei do livro de Malaquias” é a única Lei que não foi cravada na cruz para os crentes. Pedro também alerta que nos últimos dias mestres iriam fazer negócios com palavras fingidas por causa da avareza (II Pedro 2:3).


Veja um resumo da mensagem de Malaquias:
Primeiro debate: (1:2-5) Deus ama a Israel.
Deus: Eu vos tenho amado.
O povo: Em que nos tens amado?
Deus: Amei a Jacó (Israel), porém aborreci a Esaú (Edom).

Segundo debate: (1:6-2:9) O Pai de Israel merece honra.
Deus: Por que vós, os sacerdotes, desprezais o meu nome?
Sacerdotes: Em que desprezamos o teu nome?
Deus: Ofereceis sacrifícios imundos.
Sacerdotes: Em que te havemos profanado?
Deus: Trazeis animais defeituosos, coxos ou enfermos.

Terceiro debate (2:10-16) Deus odeia o divórcio.
Profeta: Deus não aceitará tuas ofertas
Povo: Por quê?
Profeta: Porque quebraste a aliança de matrimônio com a mulher da tua mocidade.

Quarto debate (2:17-3:5) Deus é justo. Parte 1.
Profeta: Enfadais a Deus.
Povo: Em quê?
Profeta: Questionando sua justiça, pensando que os que fazem o mal prosperarão. Deus punirá os perversos.

Quinto debate (3:6-12) Dar o dízimo é indício de arrependimento.
Profeta: Tornai-vos a Deus.
Povo: Em quê?
Profeta: Roubais a Deus.
Povo: Em quê?
Profeta: Nos dízimos e nas ofertas.

Sexto debate (1:13-4:3) Deus é justo. Parte 2.
Deus: Tendes falado contra mim.
Povo: Que temos falado contra ti?
Deus: Dizendo que é inútil servir a Deus. Eu punirei os perversos e
recompensarei os fiéis.

Primeiro epílogo: (4:4) Guardai a lei de Moisés.
Segundo epílogo: (4:5-6) Elias virá antes do dia do Senhor.



Observe que o livro termina advertindo o povo para voltar para a Lei de Moisés. Aí está o perigo na interpretação e na aplicação direta do texto Malaquias 3:8-11. Deve-se tomar o cuidado com o contexto imediato. Sabemos que a igreja não está subordinada à Lei de Moisés nem pode estar. Muitos pregadores cometem esse erro quando, veementemente, aplicam uma parte do texto para os cristãos sem contextualizar. A pregação fica totalmente fora de contexto para a igreja. O melhor seria pregar o livro de Malaquias extraindo os princípios espirituais do texto e não simplesmente acusar o povo de roubar a Deus nos dízimos e ofertas.

A pergunta que fica no ar é: Será que Deus tem aceitado os dízimos e ofertas do povo de hoje? Os divórcios só têm aumentado nos últimos anos no meio cristão, a falta de reverência e respeito nos cultos e muitas esquisitices estão acontecendo nos púlpitos de algumas igrejas.


VI – CUIDADO COM MATEUS 23:23.

Passando para o Novo Testamento, é argumentado que Jesus confirmou o dízimo para os cristãos com essa passagem:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” (Mt 23:23).

Analisando o contexto, Jesus está falando para Judeus, no tempo da Lei. Lembre-se que o Novo Pacto (Novo Testamento) só começou a vigorar a partir da ceia do Senhor e, efetivamente, após a morte de Jesus. É comum alguns cristãos acharem que o Novo Pacto começa no primeiro capítulo de Mateus.

Jesus jamais recomendaria para um judeu violar o pacto com Deus. Tanto é assim, que em outras ocasiões, Jesus pediu para que se cumprisse a Lei. Por exemplo, quando ele curou um leproso, mandou-o apresentar-se ao sacerdote conforme a lei prescrevia (Mateus 8:4).

Observa-se também, que alguns Judeus estavam dizimando das hortaliças (hortelã, endro e cominho), ou seja, eram detalhistas demais com pequenas coisas e negligentes com outras mais importantes. Essa repreensão é confirmada no versículo seguinte que diz: “Condutores cegos! que coais um mosquito e engolis um camelo” (Mateus 23:24).

Outro detalhe que se percebe no texto é que não há referência a dinheiro, pois, como já foi analisado anteriormente, o dízimo judaico não tinha nada a ver com dinheiro. E todas as vezes que nos textos do Novo Testamento se refere a dinheiro, é sempre usado o termo oferta, e não dízimo.


VII – AS CONTRIBUIÇÕES DA IGREJA PRIMITIVA

No livro de Atos dos apóstolos, estão registradas algumas passagens interessantes a respeito da contribuição no início da igreja. Logo em Atos 2:45 diz: “E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister”. Em seguida, em Atos 4:34-35 está escrito: “Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha”.

Os cristãos que possuíam mais recursos ajudavam os que estavam passando por necessidades. Eles não eram obrigados a fazerem isso, nem eram constrangidos a darem o dízimo do que vendiam. Eles estavam cheios de graça e faziam as contribuições motivadas pelo amor ao próximo. Infelizmente, os problemas com o dinheiro começaram cedo. O caso de Ananias e Safira reflete o pecado da avareza e da mentira de alguns membros e, por causa disso, Deus castigou-os severamente para que os outros aprendessem a importância da santificação e da motivação correta. Observa-se que Pedro não exige de Ananias o dízimo da venda da propriedade e, nem mesmo, que entregue todo o dinheiro para a igreja. “Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus” (Atos 5:4).

Mais adiante, no capítulo 15 de Atos, está registrada a primeira reunião de debates teológicos da igreja. Os cristãos de origem judaica exigiam que os gentios convertidos se circuncidassem e guardassem a lei de Moisés para serem salvos. Os apóstolos rejeitaram essa doutrina e escreveram os requisitos mínimos necessários para que houvesse uma convivência pacífica entre judeus e gentios. Nesses requisitos mínimos não está nada referente ao recolhimento de dízimos e ofertas e, nem mesmo a guarda dos sábados. Mas, muitos intérpretes modernos, utilizam os princípios da hermenêutica bíblica para condenar a guarda do sábado e, se esquecem de usar os mesmos princípios quando interpretam a guarda dos dízimos e ofertas.

Na primeira carta de Paulo aos Coríntios, no capítulo 16, está registrado o pedido para se fazerem coletas para os irmãos em Jerusalém. O apóstolo recomenda que as ofertas sejam de acordo com o ganho, ou seja, proporcionalmente. Não se vê nenhuma recomendação explícita de quanto é essa proporção.

Na segunda carta aos Coríntios, a partir do capítulo oito, Paulo elogia os irmãos da Macedônia por contribuírem com amor e generosidade. “E não somente fizeram como nós esperávamos, mas a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor, e depois a nós, pela vontade de Deus” (2 Co 8:5). Mais adiante ele diz que “Porque, se há prontidão de vontade, será aceita segundo o que qualquer tem, e não segundo o que não tem” (2 Co 8:12). Mas, em algumas igrejas modernas, as pessoas são desafiadas a fazerem empréstimos bancários para ofertarem o que não tem.

No capítulo 9, da mesma carta, Paulo continua explicando que as contribuições não devem ser feitas por motivo de extorsão e sim por generosidade (2 Co 9:5). Paulo confirma o princípio espiritual da plantação e da colheita: “E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância ceifará” (2 Co 9:6). No entanto, ele prossegue afirmando que as contribuições deveriam ser “...segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade (constrangimento); porque Deus ama ao que dá com alegria” (2 Co 9:7). Esse versículo maravilhoso não é tão divulgado como o de Malaquias. Na verdade, o princípio que Paulo está ensinando parece não agradar tanto a igreja contemporânea, pois fala da liberdade do cristão em decidir o quanto quer contribuir e, do alerta de não se fazer constrangido por emoções ou por pressões psicológicas. Alguns ainda insistem em dizer que Paulo está se referindo às ofertas e não aos dízimos. Mas, não conseguem provar pelas Escrituras que a igreja primitiva praticava os dízimos.

Paulo conclui afirmando que a contribuição dos cristãos é uma forma de adoração a Deus (2 Co 9:12-13). Esse princípio é muito importante, pois é o mesmo demonstrado em toda a Bíblia: adoração, reverência e gratidão.

Em todo o Novo Testamento existe o fundamento da contribuição financeira para o sustento da igreja, principalmente o cuidado com os líderes que ministram a Palavra e com as viúvas. Mas não há textos no Novo Testamento que respaldem a taxa de 10% como referência mínima.

A prática de dízimos só foi acrescentada no seio da igreja no final do século IV por meio da Igreja de Roma. Isso devido ao aumento das despesas em decorrência da nova vinculação da Igreja ao Estado. Assim, nos três primeiros séculos do cristianismo não houve pagamento de dízimos, e muitos dos líderes da época, como Irineu, condenavam o dízimo por considerá-lo legalista e ritualista, em oposição à espontaneidade das ofertas voluntárias.

CONCLUSÃO

O cristão dever ter a consciência de que a sua igreja é uma comunidade e, como tal, necessita de sustento para cumprir com suas obrigações regulares. O pensamento de um verdadeiro cristão não é ficar dando desculpas para não contribuir. Infelizmente alguns cristãos contribuem por obrigação (como se fosse uma lei) ou por medo de Deus, ou porque vai quebrar algo e tomar um prejuízo, ou até mesmo com medo de perderem a salvação. Outros fazem de uma forma legalista separando até os centavos no cálculo dos 10%. O amor deve ser o motivador para a contribuição, pois como Paulo mesmo disse: “E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria” (1 Co 13:3).

Contribuir não é algo que se deva fazer com tristeza ou pensando no que você poderia gastar aquele dinheiro se não contribuísse. Se você está nessa situação, ore a Deus confessando o seu pecado e mude sua atitude. A Bíblia diz em provérbios 3:9-10 “Honra ao SENHOR com os teus bens, e com a primeira parte de todos os teus ganhos; E se encherão os teus celeiros, e transbordarão de vinho os teus lagares.”. Uma ilustração bem prática para o entendimento desse princípio é o que acontece com o primeiro pedaço do bolo numa festa de aniversário. Sempre as pessoas esperam para quem será o primeiro pedaço, pois é uma demonstração de honra. Assim deve ser o pensamento do crente. Devemos honrar ao Senhor com a primeira parte de nossa renda e com alegria de poder participar dessa obra maravilhosa, que é a salvação de almas. Também não se deve fazer de forma negligente nem como a última coisa do mês. Jesus disse: “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mateus 6:21).

Mostrou-se neste estudo que o dízimo é uma doutrina do Antigo Testamento e não uma doutrina do Novo Testamento. Mas, se sua igreja utiliza esse parâmetro como uma referência nas contribuições e, se você propôs em seu coração em contribuir dessa forma, não é pecado. O importante é que o motivo que leve você a contribuir não seja como um mero cumprimento de uma lei, pois Jesus cravou na cruz toda a Lei, e o que tem valor é a fé que atua pelo amor.