Pesquisar este blog

segunda-feira, 12 de março de 2012

Estudos em Apocalipse - Aula 1

Introdução
O estudo do livro de Apocalipse é uma tarefa desafiadora. Para alguns, é um livro tão difícil de entender que não atrai a atenção. Para outros, causa medo devido a várias passagens que falam de morte, sofrimento e destruição. Entretanto, o livro começa com o aviso que diz: “Feliz aquele que lê as palavras desta profecia e felizes aqueles que ouvem e guardam o que nela está escrito” (Ap 1:3). É nesse espírito de felicidade prometida que devemos encarar o estudo desse livro, pois assim, poderemos compreender muitas coisas que o Senhor Jesus deixou para aqueles que o amam.

A palavra grega “apokalypsis”, que significa “revelação”, é a primeira que aparece no livro, e serve de título para este último e impactante livro da bíblia. O livro de Apocalipse é a consumação das profecias do Antigo Testamento. Está repleto de símbolos e expressões tomadas dos escritos dos profetas que foram favorecidos por revelações referentes ao fim dos tempos, como é o caso de Daniel, Isaias, Ezequiel e Zacarias.

Tema
O enfoque de Apocalipse está claramente na vinda futura de Cristo. A vitória do bem sobre o mal e a restauração de todas as coisas por meio de Jesus. O livro mostra que Deus tem um plano, que termina com a vitória de Cristo. Tudo terminará nas mãos dele, com todo joelho se dobrando diante dele. Isto já fica claro em Ap 1.7. Este é o pano de fundo do livro. Há perseguição em seu enredo, mas cânticos e louvor estão em todo o livro.

Na hora da aflição, as igrejas e os seus membros são estimulados a permanecerem fiéis a Cristo. Exortações à perseverança como essas estão espalhadas por todo o Novo Testamento. Até hoje elas representam uma necessidade e obrigação central da vida cristã autêntica.


Autoria
O autor se declara como sendo João (1:1,4,9; 22:8) e que escreveu por ordem do Senhor Jesus Cristo. Muitos concordam que o autor é, de fato, João, o filho de Zebedeu, um dos doze apóstolos. Mas, alguns estudiosos discordam dessa autoria devido ao estilo gramatical e literário do grego ser inferior e muito diferente ao do Evangelho e das cartas. Quem levantou essa dúvida foi Dionísio de Alexandria no século III. Uma explicação plausível para essa divergência literária é que João pode ter se utilizado de um auxiliar para redigir o evangelho e as cartas, pois era uma prática muito comum naquela época, enquanto que o apocalipse tenha sido escrito de próprio punho, num estado emocional abalado devido à perseguição e o exílio na ilha de Patmos. Dessa forma explicaria o estilo menos polido do grego do livro de Apocalipse. Independente disso, esta obra é atestada como canônica desde os primórdios da igreja.

Data e destinatários
Presume-se que a data tenha sido o ano 95. O local de sua escrita foi Patmos, ilha vulcânica, rochosa e estéril, a 56 km da costa da Ásia Menor (Turquia). Era para onde se enviavam os prisioneiros na época do imperador romano Domiciano (81 a 96). Os destinatários são as sete igrejas da Ásia (em geral, fundadas por Paulo). Era onde a perseguição estava sendo mais cruenta.

 

Métodos de interpretação
O livro de Apocalipse é conhecido como o mais difícil de interpretar. Alguém disse: “Quem não tem dúvida alguma na interpretação de grandes partes de Apocalipse, tem mais coragem do que sabedoria”. Depois de ter encontrado alguns trechos cujo significado não é claro, é melhor dizer: “não entendo”, e esperar pacientemente uma explicação em vez de buscar interpretações forçadas e fantásticas.

É provável que a interpretação do livro se torne mais clara quando chegar o tempo do cumprimento das suas profecias. Na época do Antigo Testamento, o fato da vinda do Messias era um acontecimento sobre o qual todos os fiéis da nação estavam de acordo. Mas, para eles, a profecia messiânica deve ter apresentado muitas dificuldades de interpretação como o livro de Apocalipse apresenta dificuldades a nós. Nem os profetas compreenderam sempre as suas próprias profecias e algumas coisas estavam ocultas para eles, como é o caso do mistério da Igreja que o apóstolo Paulo explica em sua carta aos Efésios (Ef 3:5,9). De forma semelhante, no capítulo dez do livro de Apocalipse, João é proibido de escrever o que os trovões disseram (Ap 10:4). Sobre esse assunto, muitos teólogos fazem especulações, mas nenhum pode afirmar com certeza o que foi dito e o que realmente significa. Acreditamos que no momento certo o Senhor Jesus irá abrir nossas mentes para enxergarmos muitos detalhes que atualmente são obscuros.

Independente da interpretação do livro, há muitas lições valiosas a aprender, muitos avisos a atender, muitas promessas animadoras, que fazem com que o livro de Apocalipse seja de grande valor prático para o cristão. Por exemplo, as mensagens às igrejas contêm instruções práticas que podem ser aplicadas tanto à igreja, como ao indivíduo. Quanto a isto, é aconselhável recordar-se que, sempre é mais proveitoso praticarmos coisas que compreendemos do que procurarmos adivinhar e especular acerca de coisas que não compreendemos.

Diante dessas dificuldades interpretativas, vários teólogos desenvolveram alguns métodos e conceitos. Segundo Champlin (1995) os principais são:

·        PRETERISTA. Esse ponto de vista dá a entender que todas as ocorrências mencionadas no livro de Apocalipse tiveram lugar no Império Romano, no primeiro século de nossa era, embora talvez haja acontecimentos referentes ao segundo século. Alguns supõem que o livro não pode ser uma profecia genuína, mas tão somente um escrito simbólico e uma avaliação mística dos acontecimentos daquela porção do mundo para onde o livro foi originalmente enviado. Alguns estudiosos Católico-romanos também favorecem esse ponto de vista, talvez porque impossibilita a interpretação de alguns protestantes, que fazem do Papa o anticristo (ou falso profeta), além de rejeitar a ideia que a Igreja Católica Romana seja representada por Babilônia (Ap 17 e 18). Alguns estudiosos insistem, por exemplo, que a besta (governante) que sofreu o ferimento de morte era Nero (Ap 13), mas, como bem disse o teólogo Milligan: “todo o tom do livro leva a uma conclusão oposta. Ele trata em grande parte daquilo que estava para acontecer no fim dos tempos... Fica claro que o Apocalipse diz respeito à história da igreja até que esta entre em sua herança celestial”.
·        HISTORICISTA. Assume que todos os acontecimentos previstos no Apocalipse se encaixam em várias épocas da história humana. A séria de “sete” (selos, trombetas, taças e anjos) supostamente representaria sucessivos estágios da história da humanidade, até à volta de Cristo, o que daria fim ao presente ciclo geral. Porém, as explicações sobre os símbolos individuais variam de tal maneira entre os intérpretes que a dúvida acaba enfraquecendo esse próprio método de interpretação.
·        FUTURISTA. Há os “futuristas extremos”, que pensam que o livro inteiro é preditivo, incluindo os capítulos dois e três (as cartas às sete igrejas), que representariam sucessivos estágios da história eclesiástica, até à vinda de Cristo. Mas há os “futuristas moderados”, que admitem que os capítulos dois e três referem-se ao passado (ou ao presente); mas que a começar no quarto capítulo temos o futuro, o que deverá ocorrer imediatamente antes do segundo advento de Cristo. Desde a invenção e do uso das bombas atômicas e da criação das bombas de hidrogênio, muitos intérpretes estão dispostos a considerar a opinião futura. Muitos escritores começaram a se referir a esta era como ”uma era apocalíptica”, por causa das terríveis possibilidades e ameaças de destruição em massa por meio das imensas forças que estão sob o controle de governos ímpios e amorais, e que se assemelham à devastação a ser operada nesta terra pelos juízos profetizados no Apocalipse.
·        SIMBÓLICA ou MÍSTICA. Esse ponto de vista assume que o livro de Apocalipse não é essencialmente profético nem histórico, mas é uma coletânea de símbolos místicos, que visam ensinar lições espirituais e morais. Tais acontecimentos seriam puramente espirituais, podendo “acontecer” em qualquer período histórico. É verdade que o livro realmente tem esta mensagem, mas, certamente, é um livro de profecia, com eventos específicos como o aparecimento do Anticristo, a batalha do Armagedom etc.

Nossa perspectiva neste estudo
Existem verdades em cada um desses métodos de interpretação. Por exemplo, há grandes verdades espirituais em todo o livro, e os primeiros três capítulos devem ser interpretados historicamente. Mas, a maior parte das profecias de Apocalipse ainda aguarda o seu cumprimento. Portanto, o ponto de vista que adotaremos neste estudo é o futurista moderado, mas sem esquecer que João estava escrevendo não somente para o fim desta era, mas também para os cristãos a ele contemporâneos e, de fato, para os crentes de cada geração. O Apocalipse retém sua relevância de modo permanente por causa da possibilidade que tem cada geração sucessiva de ver o cumprimento do livro em suas predições. Também respeitaremos o texto de forma simples, ou seja, o que pode ser considerado como um evento literal, então, essa será nossa primeira opção de interpretação. Caso contrário, consideraremos o evento como uma figura de linguagem e, aguardaremos pacientemente os acontecimentos, na esperança que tudo ficará patente no momento adequado. O que jamais deveria acontecer em nosso meio, mas que infelizmente acaba acontecendo, é de um irmão se aborrecer e afastar-se de outro por causa de uma interpretação profética. Por exemplo, existem irmãos que se separam uns dos outros por discordarem do arrebatamento, do milênio e da tribulação. Respeitar as opiniões dos outros é sempre o mais recomendado. Precisamos compreender e diferenciar o que é essencial, o que é importante e o que é irrelevante, principalmente na teologia. Frequentemente os seres humanos brigam por coisas que consideram importantes e se esquecem das essenciais – especialmente o amor – que é deixado de lado numa rapidez espantosa.

 

Bibliografia:
1.    CHAMPLIN, R.N. O Novo Testamento Interpretado. 1995.
2.    COHEN, Armando Chaves. Estudos sobre o Apocalipse. 2001.
3.    DOCKERY, David S. Manual Bíblico Vida Nova, 2001
4.    FILHO, Isaltino Gomes Coelho. O Apocalipse de João.
5.    GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. 2 ed. 1998.
6.    MACDONALD, William. Comentário Bíblico Popular do Novo Testamento, 2008.
7.    PEARLMAN, Myer. Através da bíblia – livro por livro. 1997.
8.    PFEIFFER, Charles; e outros. Dicionário Bíblico Wycliffe, 2007.
9.    POHL, Adolf. Apocalipse de João – Comentário Esperança. 2001.
10. SILVA, Severino. Apocalipse versículo por versículo. 1985