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sábado, 12 de janeiro de 2013

Liberdade Cristã

Por Lincoln Máximo Alves 
Estudo preparado para a EBD da Igreja Batista no Setor de Mansões em Sobradinho II-DF Brasília, Janeiro de 2013
 

Introdução 

 
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão. [...] Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor. Toda a Lei se resume num só mandamento: “Ame o seu próximo como a si mesmo”(Gálatas 5:1,13,14). 
Falar de Liberdade Cristã não é uma coisa tão simples. Gera-se grande polêmica, especialmente devido aos mal-entendidos a respeito do uso do Antigo Testamento (AT) e do Novo Testamento (NT) para os cristãos em cada geração. Também existe a dificuldade em se definir os conceitos de mundanismo e de espiritualidade, ou como dizem, daquilo que é sagrado e do que é profano.

A Bíblia diz para sermos santos, porque Deus é santo (1 Pe 1:16). Mas o que queremos dizer com “ser santo” e “ser mundano”? Muita gente considera espiritualidade e mundanismo como sendo uma lista de coisas permitidas, e não. A ideia que temos sobre isso afeta a nossa maneira de tratar os jovens crentes, convertidos de meios não evangélicos, e afeta igualmente os conselhos que damos a outros para que vivam santamente, e bem assim os métodos que usamos com crianças na Escola Dominical ou em casa. Nossa maneira de definir santidade influi também em nossas relações com crentes que são mais rigorosos do que nós, ou mais liberais, em suas atitudes concernentes a várias práticas e divertimentos.

O que um cristão pode ou não fazer? Qual é a maneira correta de se aplicar o Velho e o Novo testamento para os cristãos? Os cristãos estão sob a Lei de Moisés? Os cristãos podem julgar os outros se baseando numa lista de regras de “pode e não pode”? Que parâmetros o cristão deve basear a sua vida? Como usar a liberdade em Cristo? Como ser santo em nosso século?

Durante muito tempo os cristãos têm debatido sobre isso. Inúmeras denominações foram criadas nos últimos dois mil anos, e em sua maioria, as divisões ocorreram devido às divergências em questões secundárias do que propriamente na essência do evangelho e da fé. Ou seja, as divisões começaram por causa de doutrinas que eram inicialmente importantes, e para determinado grupo de indivíduos, se tornaram essenciais, e vice-versa. Como se diz: “O que é importante para você, é irrelevante para mim; e o que irrelevante para você é muito importante para mim”. Isso engloba a forma de batismo, a ceia, a liturgia, a lista de pecados, o sábado ou o domingo, as comidas, o vestuário, a mãe de Jesus, os dons do Espírito Santo, a forma de governo da igreja, entre outras. Ao final, se formos extrair das diversas denominações a essência de quem é Jesus Cristo e qual a mensagem do Evangelho, iremos encontrar a mesma resposta: Jesus é o filho de Deus que veio à terra, para morrer pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras (1 Co 15:1-4). E todo aquele que crê nisso será salvo, pois o Evangelho (essa boa notícia) é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1:16). Essa é a essência, pois toda a Escritura se baseia nesses dois princípios para a salvação de qualquer pessoa. Portanto, o que encontraremos é uma divisão acerca de doutrinas que são na realidade, importantes, sem dúvida, mas não são essenciais para a salvação. São secundárias e de aplicações diferenciadas. Não se pode afirmar que um cristão não será aceito por Cristo no céu por ele ter sido batizado com menos água do que você, por exemplo.

É claro que existem divisões que foram causadas por divergências na parte essencial. Isso é fato. Outras religiões e denominações possuem sempre outro tipo de escritura para fundamentar suas ideias, e com isso, acrescentam, diminuem, modificam aquilo que é essencial, enfim, deturpam a essência da Bíblia, que é a própria pessoa de Jesus Cristo. Quem segue a Bíblia, e é fiel à mensagem do Evangelho irá sempre ter a mesma convicção.

Mas como resolver a questão da diversidade de culturas e de pensamentos sem cairmos nos extremos do relativismo e do etnocentrismo? ETNOCENTRISMO é a característica de um individuo ou grupo achar que o seu modo de vida, suas ideias e seus hábitos são os mais corretos, melhores e superiores do que dos outros. Do ponto de vista intelectual, etnocentrismo é a dificuldade de pensar a diferença, de ver o mundo com os olhos dos outros. Já o RELATIVISMO é uma doutrina que prega que tudo é relativo, e que rejeita os conceitos absolutos e afirmações categóricas. Afirmam que as verdades (morais, religiosas, políticas, científicas, etc.) variam conforme a época, o lugar, o grupo social e os indivíduos de cada lugar.

Realmente existem coisas relativas e coisas absolutas. A Bíblia fala sobre isso e iremos tratar disso mais adiante. Devemos ser maduros para saber discernir aquilo que é relativo e aquilo que é absoluto. Não podemos tratar tudo como absoluto, nem tudo como relativo. Podemos usar como exemplo o futebol no Brasil, o beisebol nos Estados Unidos. Não era coisa de crente ir a um estádio para ver um jogo. Era considerado mundano. O jogo de dominó, o xadrez, a dama e o baralho eram proibidos em alguns círculos evangélicos. A mulher usar calça, maquiagem e brincos, entre outras coisas, era considerada mundana. Hoje, quantas mulheres, que não são mundanas, estão na igreja usando essas coisas e não concordam com os irmãos do passado. Ao mesmo tempo não podemos achar que tudo é relativo e que a igreja deva aceitar tudo que aparece no mundo com a desculpa de que precisa se modernizar. Então, o que fazer? Para isso, precisamos entender três conceitos que são tratados na Bíblia: Liberdade, Legalismo e Licenciosidade.
 

1 - Liberdade


Jesus começou seu ministério cumprindo a seguinte profecia de Isaías:
“o Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor”. (Lucas 4:18-19 cf. Isaías 58:6;61:1,2).

Jesus nos libertou não somente da escravidão espiritual, mas também da escravidão religiosa, cultural, racial e, futuramente, governamental, pois Cristo irá reinar sobre todos os povos e nações literalmente. Aonde o evangelho chegou, nações foram libertas de suas práticas que atentavam contra a vida. Mulheres foram libertas da escravidão e do preconceito. Crianças foram salvas do infanticídio, como é o caso de algumas tribos indígenas que enterravam seus filhos gêmeos, ainda vivos, porque o pajé dizia que eles eram amaldiçoados. Também crianças que nasciam com algum problema físico ou mental eram assassinadas para não sobrecarregar a tribo. Mulheres na áfrica tinham seus órgãos genitais mutilados por causa de costumes religiosos, porque a mulher não podia ter prazer sexual. Outras tribos praticavam o Canibalismo.

Para exemplificar, aconteceu na ilha Fugi o caso de um rapaz ateu que começou a ridicularizar as Escrituras Sagradas e a menosprezar a fé sincera daqueles nativos usando de arrogância e enaltecendo seus conhecimentos científicos evolucionistas. O chefe daquela tribo se dirigiu ao rapaz, dizendo: “O Senhor está vendo aquele velho forno? Ali assávamos carne humana; não fosse a Bíblia e a transformação que Deus realizou em nós pela sua mensagem, hoje o senhor seria o nosso jantar”. Aquele rapaz viu a mudança que a Palavra de Deus operou naquele povo, pois ao invés dele ser o jantar, foi convidado para jantar. Esses são alguns exemplos do poder do Evangelho na vida de um povo.

É muito importante para se compreender o conceito de liberdade cristã entender primeiramente a relação de Jesus Cristo com a Lei de Moisés. O texto de Gálatas 5, em que começamos o nosso estudo, fala da nossa liberdade conquistada por Jesus Cristo na cruz. O apóstolo Paulo fala para não deixarmos nos prender novamente a um jugo de escravidão. Ele estava se referindo às normas do Judaísmo.

1.1 - Jesus aboliu a Lei ou a mudou?


Lei é norma de vida. A lei de Deus é uma norma de vida que Ele entregou para ensinar sua vontade aos homens. No progresso da divina revelação, Deus achou por bem estabelecer diferentes formas ou sistemas de regras que variam de acordo com a época, os povos e o propósito divino. Uma visão adequada dessa organização é especialmente importante, quando se trata da questão da liberdade cristã, e da lei.

Há grande confusão no meio cristão a respeito da interpretação de Mateus 5:17 quando Jesus disse que não veio revogar a Lei, e sim, para cumpri-la. Essa dúvida confunde muitos cristãos. Por causa disso, inúmeras denominações surgiram extraindo trechos da Lei de Moisés e montando suas doutrinas daquilo que eles achavam mais interessantes e que deveria permanecer para os cristãos. Mas, qual a interpretação dada pelos apóstolos no Novo Testamento?

Paulo argumenta em sua carta aos Gálatas que Jesus Cristo cumpriu a Lei, e por isso mesmo, Ele pôde modificá-la, pois estava previsto na própria lei que o Messias iria mudá-la no estabelecimento da nova aliança (Gl 3:23-25). O escritor de Hebreus deixa isso bem claro quando diz: “Certo é que, quando há mudança de sacerdócio, é necessário que haja mudança da lei [...] Chamando nova esta aliança, ele tornou antiquada a primeira; e o que se torna antiquado e envelhecido está a ponto de desaparecer” (Hb 7:12;8:13). Em Romanos 10:4 diz: “porque o fim da lei é Cristo, para a justiça de todo aquele que crê”. Em Efésios 2:14-16 diz: “Pois ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um e destruiu a barreira, o muro de inimizade, anulando em seu corpo a Lei dos mandamentos expressa em ordenanças. O objetivo dele era criar em si mesmo, dos dois, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliar com Deus os dois em um corpo, por meio da cruz, pela qual ele destruiu a inimizade”. Em Colossenses 2:14 diz: “e cancelou a escrita de dívida, que consistia em ordenanças, e que nos era contrária. Ele a removeu, pregando-a na cruz”.

Paulo insistia em uma absoluta liberdade do sistema de leis de Moisés como o resultado da justificação por meio da fé em Cristo (Rm 7:1-6; 1 Co 10:29; 2 Co 3:17; Gl 2:4; 4:21-31; 5:1,13). Ao mesmo tempo, ele advertiu contra o uso desta liberdade como uma base para a licenciosidade (1 Co 6:12;10:23; Gl 5:13; cf 1 Pe 2:16), e também contra a permissão para que se torne uma pedra de tropeço para algum irmão mais fraco (Rm 14:1-23; 1 Co 8:7-13).

Então, se o cristão não está subordinado à Lei de Moisés, qual a lei para os cristãos? Jesus veio dar o verdadeiro sentido da Lei de Deus. Deus prometeu que escreveria a sua Lei em nossos corações e nossas mentes (Hb 10:16). Jesus transformou aquela lista de regras e maldições em princípios que valem para qualquer nação, povos e culturas. Ele derrubou todas as barreiras (religiosas e culturais) e formou uma nova nação, a igreja (Jo 11:51-52).

Como o próprio apóstolo Paulo se via em relação à Lei de Moisés? Veja o que Paulo disse em 1 Coríntios 9:19-22 está escrito:
Porque, embora seja livre de todos, fiz-me escravo de todos, para ganhar o maior número possível de pessoas. Tornei-me judeu para os judeus, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da Lei, tornei-me como se estivesse sujeito à Lei (embora eu mesmo não esteja debaixo da Lei), a fim de ganhar os que estão debaixo da Lei. Para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei (embora não esteja livre da lei de Deus, e sim sob a lei de Cristo), a fim de ganhar os que não têm a Lei. Para com os fracos tornei-me fraco, para ganhar os fracos. Tornei-me tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns.

Paulo diz que ele agora não está mais subordinado à Lei do AT, mas sob a Lei de Cristo, e essa Lei é baseada no amor, pois quem ama cumpre a Lei (Gl 5:14; Rm 13:9). Em Gálatas 6:2 ele diz: “Levai os fardos uns dos outros e assim estareis cumprindo a lei de Cristo”, ou seja, ajudem uns aos outros por amor. Jesus resumiu toda a Lei em dois mandamentos:
“Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22:37-40).

Também em Mateus 7:12, Jesus disse: “assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os profetas”. Observe que por esses princípios Jesus deu a real direção da Lei, extraindo a essência do que Deus queria para o seu povo. Paulo explica que a Lei de Moisés foi dada por causa das transgressões para que o povo reconhecesse os seus erros e pudesse haver julgamentos justos (Gl 3:19). Mas da mesma forma que um termômetro mostra que um indivíduo está com febre, mas não consegue eliminar a causa da febre, é assim com a Lei. Ela jamais consegue resolver o problema, simplesmente exibe o problema, mas não o remove. Quanto mais Lei você impõe sobre si mesmo ou sobre os outros, você acabará aumentando a força do pecado (1 Co 15:56). Daí é que surge o Legalismo.
 

 2 - Legalismo  

 
Malcon Smith definiu legalismo como um caldo mortífero. Quem dele se nutre adoece e morre. O legalismo é uma ameaça à igreja, pois dá mais valor à forma do que a essência, mais importância à tradição do que a verdade, valoriza mais os ritos religiosos do que o amor. O legalismo veste-se com uma capa de ortodoxia, mas em última análise, não é a verdade de Deus que defende, mas seu tradicionalismo conveniente. O legalista é aquele que rotula como infiéis e hereges todos aqueles que discordam da sua posição. O legalista é impiedoso. Ele julga maldosamente com seu coração e fere implacavelmente com sua língua e espalha contenda entre os irmãos.

O legalismo é o erro que amordaça e prende a consciência e sufoca a liberdade cristã. Podemos definir o termo legalista como sendo aquela pessoa que procura viver por força de lei ou por observância rigorosa aos preceitos da lei, mas não propriamente da lei de Deus, e sim das muitas leis que ele mesmo cria para si, crendo que expressam a vontade de Deus para sua vida. Desta forma, o legalista é aquele que crê ter encontrado na Bíblia mandamentos, claros ou não, que proíbam de passear no shopping, jogar bola, etc. O legalista é o responsável direto pelo fato de o cristianismo ser visto, por muitos incrédulos, como uma religião meramente proibitiva, carente de alegria e de vida.

O legalista acaba criando uma série interminável de mandamentos humanos que ele se esforça em cumprir à risca ( não use essa cor, não gaste dessa forma, e assim por diante), e com isso ele acaba negligenciando a lei de Deus. Aquele que se esforça para dar ares de religiosidade em tudo aquilo que o rodeia se esquece com muita facilidade que o pecado não está somente fora dele, mas também dentro dele, dentro de seu coração. À luz dessas considerações não é de admirar que os fariseus, que eram extremamente legalistas, tenham sido considerados por Jesus como guias cegos, que coam o mosquito e engolem o camelo (Mt 23.24), pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem sobre os ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los (Mt 23:4).

Vamos exemplificar como acontece o legalismo na vida de uma pessoa. Um indivíduo tem sérios problemas com chocolate e não consegue se controlar. Então ele cria pra si uma lei que não pode comer chocolate. Todas as vezes que ele não consegue se controlar e come um chocolate, lhe vem o sentimento de culpa. Quando esse indivíduo está conseguindo se controlar e vê alguém comendo chocolate com alegria, ele passa a considerar aquela pessoa como uma transgressora de sua lei (como sendo de Deus), pois, em sua mente, aquilo é um pecado terrível, pois faz lembrar-se do seu mal. Esse indivíduo passa a querer impor as suas regras sobre o outro, que não vê problema algum em comer chocolate, mas recebe toda a culpa da consciência do legalista. Usando um termo científico mais moderno, é uma espécie de clonagem de comportamento. Esse tipo de atitude criou o estereótipo do crente ser uma pessoa bitolada.

Paulo explica isso quando escreve aos Colossenses no capítulo dois, quando diz:
Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: “Não manuseie!”, “Não prove!”, “Não toque!”? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne. (Cl 2:20-23).

A Lei de Moisés está dividida em 613 mandamentos que abrangem todas as áreas da vida e da religião judaica. Embora seja possível dividir esse sistema de leis em diferentes categorias, nunca se deveria esquecer de que a lei de Moisés é uma unidade e, como tal, ela se mantém como um todo, ou desmorona como um todo. Dizer que apenas uma parte da lei mosaica permanece em vigor atualmente (como os Dez mandamentos) é ignorar sua natureza unitária (cf. Charles Ryrie, The Grace of God, Moody Press, 1963, pp. 98-105).

Além de ser unitária em sua natureza, a lei mosaica é distintamente judaica, isto é, seus pretendidos destinatários eram os israelitas, e esse ponto ficou bem claro nos dois testamentos (Lv 26:46; Rm 2:14; 9:4).

Como regra de conduta para o crente, a lei mosaica teve o seu fim a partir do ministério do Senhor Jesus Cristo, em virtude de Cristo ter atendido todos os seus requisitos, além de ter sido o seu cumprimento e a sua meta (Rm 7:4; 10:4; Gl 3:1-10-13; 2 Co 3:7-11; Hb 7:11,12; 8:13). Aqueles que destacam algumas seções da lei de Moisés (como os Dez Mandamentos ou as leis alimentares) e insistem que ainda estão em vigor atualmente, embora outros elementos tenham chegado ao fim a partir do ministério do Senhor Jesus Cristo, ignoram o fato de que quando a lei de Moisés terminou, ela terminou como uma unidade, um sistema ou um todo. O crente de hoje não está vinculado ao sistema de leis de Moisés.

Entretanto, o fato do cristão estar isento da lei mosaica (Rm 7:6) não significa que ele esteja isento da lei, isto é, das normas de vida. Essa não é a natureza da liberdade cristã, pois além do cristão estar livre da lei Mosaica, ele também está livre da escravidão do pecado (Rm 6:17-23). Isso não implica em uma falta de normas. Na verdade, essa mesma passagem fala sobre a nova situação do crente como servo da justiça, e servo de Deus (Rm 6:19,22).

O legalismo religioso é, portanto, tentar impor seções da Lei de Moisés, bem como outras tradições aos cristãos como uma lista de “certo e errado” para garantir a salvação. Isso é comentado por Tiago que diz:
Se vocês de fato obedecerem à lei do Reino encontrada na Escritura que diz: “Ame o seu próximo como a si mesmo”, estarão agindo corretamente. Mas se tratarem os outros com parcialidade, estarão cometendo pecado e serão condenados pela Lei como transgressores. Pois quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente. Pois aquele que disse: “Não adulterarás”, também disse: “Não matarás”. Se você não comete adultério, mas comete assassinato, torna-se transgressor da Lei. Falem e ajam como quem vai ser julgado pela lei da liberdade; porque será exercido juízo sem misericórdia sobre quem não foi misericordioso. A misericórdia triunfa sobre o juízo! (Tiago 2:8-13).
 

3 - Licenciosidade


As doutrinas da graça e da liberdade têm sido, muitas vezes, mal interpretadas e mal utilizadas por aqueles que procuram satisfazer seus desejos pecaminosos. Está bastante claro que a graça e a liberdade não justificam a tolerância que alguns demonstram em relação à carne. (1 Co 6:9-10; Rm 6:1-1; Gl 5:13,19-21). A licenciosidade e a libertinagem foram não só categoricamente repudiadas (como em Rm 6:1-2 e Gl 5:13), mas sua impropriedade para o cristão está claramente implícita na responsabilidade que este tem perante a lei de Cristo, como explicamos acima. Mas, nesta conexão, três coisas são especialmente importantes: a liberdade cristã está limitada pelo amor (Gl 5:13,14); a liberdade cristã, em um certo sentido, é uma nova escravidão (Rm 6:16-22); e a liberdade cristã deve ser exercida sob o controle do Espírito Santo (Gl 5:13-24).

Ao analisarmos os textos de 1 Coríntios 8:1-13 observaremos que Paulo explica que a nossa liberdade não pode ser exercida pelo orgulho do conhecimento em relação aos mais fracos na fé (v.1). Ele coloca o exemplo da comida para mostrar que ainda que tenhamos liberdade para comer o que quisermos, não podemos causar escândalo (v.9), visto que naquela época os irmãos que antes participavam de festas e práticas idólatras ficavam escandalizados por causa de outros cristãos comerem das coisas que eles sabiam que foram dedicados aos ídolos (v.10). Como acontece hoje quando alguém que não come um acarajé, por exemplo, por preconceito de achar que a cozinheira baiana que fez aquilo em dedicação a algum espírito, como também os doces de Cosme e Damião etc, e que ainda causam escândalos em algumas pessoas. Paulo conclui que se exercermos nossa liberdade ferindo a consciência dos irmãos que ainda não têm o mesmo conhecimento, estamos pecando contra Cristo (v.12). Assim, nossa liberdade será limitada pelo amor ao próximo (v.13).

No trecho de 1 Coríntios 10:23-33, Paulo continua sua explicação afirmando que em Cristo, nós temos total liberdade para fazermos o que quisermos, porém, nem todas as coisas convém nem edificam (v.23), e não devemos pensar em satisfazer nossos desejos sem se importar com o irmão ao lado (v.24). O mundo nos ensina que não devemos nos importar com o que os outros pensam, porém, a Palavra de Deus diz o contrário. Nós, os servos de Deus, devemos nos preocupar com o nosso irmão mais fraco para não causar escândalo (v.32), pois se a nossa consciência não nos acusa, devemos tomar cuidado com a consciência do outro (v.25-33).

Também em Romanos 14, Paulo explica mais uma vez como devemos proceder com a nossa liberdade em relação aos demais. Em primeiro lugar, não devemos discutir e brigar sobre dogmas religiosos (v.1-2). Sabemos que alguns irmãos guardam dias especiais e se abstém de alguns tipos de comidas, mas não devemos julgá-los por isso, pois, se eles fazem em dedicação a Deus, fazem com boas intenções, e é o Senhor que os mantém e não nós (v.2-6). Em segundo lugar, todos nós iremos comparecer diante do tribunal de Deus para darmos conta de si mesmo (v.10-12). Em terceiro lugar, não devemos ser motivo de tropeço para os outros irmãos (v.13). Não existe alimento impuro, exceto para aquele que assim o considere (v.14). Se algum irmão se entristece por algo que você faz, então você não está agindo com amor (v.15). O reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo (v.17). É melhor não fazer nada que venha a escandalizar outro irmão (v.21). Mas, se você mesmo tem dúvida em alguma coisa que queira fazer e acha que estará pecando, então não faça, para não ferir sua própria consciência e fraquejar na fé (v.22-23).

4 - O equilíbrio é dado pelo Espírito Santo


Sem o ministério do Espírito Santo, o crente cairá na libertinagem ou no legalismo. O Espírito Santo protege o cristão contra a libertinagem, provendo a direção para o exercício da liberdade pela aceitação de sua Palavra escrita , e pelo controle que Ele deseja exercer em cada cristão por meio de sua presença interior (1 Co 6:19-20). Este controle é descrito por meio de conceitos, como andar no Espírito (Gl 5:16,25), andar de acordo com a direção do Espírito (Rm 8:4), ser guiado pelo Espírito (Rm 8:14), e ser cheio com o Espírito (Ef 5:18). 
 
Por outro lado, a forma de controle do Espírito evita o legalismo. Ao invés dos preceitos do NT serem objetos de temor (medo), eles são objetos de prazer, pois o Espírito produz a vida, o poder e a motivação que tornam a obediência a Cristo e aos seus preceitos uma questão de amor, e não uma mera necessidade legalista. Por essa razão, as graças cristãs são chamadas de “fruto do Espírito” (Gl 5:22,23).  
 

CONCLUSÃO


Como temos usado nossa liberdade cristã? TODAS AS COISAS ME SÃO LÍCITAS, MAS…
  1. Elas me levarão à liberdade ou à escravidão (6:12)?
  2. Elas me farão uma pedra de tropeço ou uma pedra de passagem (8:13)?
  3. Elas irão me edificar ou destruir (10:23)?
  4. Elas irão apenas me agradar ou irão glorificar a Deus (10:31)?
  5. Elas irão ajudar a ganhar os perdidos para Cristo ou afastá-los dele (10:33)?
Paulo encerra esta sessão sobre liberdade cristã, dando algumas orientações positivas:
  1. Façam tudo para a glória de Deus (10:31) – não para determinar a minha liberdade;
  2. Procurem em tudo serem agradáveis a todos (10:33) – sem reclamar os meus direitos;
  3. Busquem o interesse de muitos (10:33) – não o meu bem-estar ou a minha satisfação pessoal;
  4. Busquem a salvação de muitos (10:33) – sem ficar preocupado com a minha salvação pessoal;
  5. Sejam imitadores de Cristo (11:1) – sem promover a minha reputação.

Isso é liberdade cristã: livrar-se de si mesmo para glorificar a Deus, tornando-se semelhante a Cristo. A espiritualidade genuína consiste em encarar tudo do ponto de vista de Deus: considerando e vivendo todas as partes de nossa vida segundo o Seu padrão de valores e em termos de Sua vontade revelada a nós, de sorte que tudo quanto dizemos e fazemos glorifique a Jesus Cristo, que nos ama e Se entregou por nós.
 
 

BIBLIOGRAFIA


LITTLE, Paulo E. Como compartilhar a sua fé. 5ª Ed. ABU EDITORA, 1993.

LOPES, Hernandes Dias. Como ser sábio a respeito da liberdade cristã. Disponível em:
< http://hernandesdiaslopes.com.br/2004/05/como-ser-sabio-a-respeito-da-liberdade-crista>.

LOPES, Hernandes Dias. Legalismo, um caldo mortífero. Disponível em: <http://hernandesdiaslopes.com.br/2011/04/legalismo-um-caldo-mortifero/>.

PFEIFFER, Charles, et al. Dicionário bíblico Wycliffe. 2ª Ed. CPAD. 2007. 
 
REIS, Ricardo Aparecido dos. A Liberdade Cristã. Trabalho Monográfico.