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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Quando o Importante sufoca o Essencial






        Inúmeras questões consideradas “importantes” são as principais causas de desavenças, desentendimento e até separações entre as pessoas. Essas separações e conflitos tiveram como origem o fato de um dia alguém ter considerado um assunto seu muito importante (chegando a achar que não poderia viver sem ele), no que o outro não concordou. O mundo está recheado de história deste tipo e, tenho que admitir, a minha vida também.
        Você já parou para analisar que a maioria das brigas acontecem no campo do "importante" quando na realidade elas nem são essenciais? A partir dessa questão, te pergunto: Você sabe diferenciar o que é essencial, o que é importante e o que é irrelevante na sua vida?
        Existem muitas coisas que consideramos importantes, mas o importante para mim pode não ser tão importante para você, e vice-versa. Quantos parentes e amigos se magoaram por causa de coisas importantes? Quantos povos, raças e nações se destruíram por coisas importantes? Quantas religiões e seitas surgiram por causa de coisas importantes? No entanto, o essencial ficou sufocado, quando o importante ganhou mais importância do que devia.
        No meio cristão não é diferente. Acompanhe minha análise a seguir:
       1) Para alguns, uma única tradução da bíblia é tão importante que não há mais espaço para o amor e compaixão. E só resta o julgamento de que o outro ainda não é um bom cristão enquanto ele não adotar a minha tradução, ainda que o indivíduo tenha entregado a sua vida àquele que é a essência de todas as palavras. Algumas traduções são muito boas, outras nem tanto, mas por causa do meu “importante” eu julgo o meu irmão que creu na essência da Palavra de Deus e termino por condená-lo em meu coração, tão somente por que sua bíblia não é a minha bíblia. A própria bíblia diz que a Palavra de Deus é Jesus (veja Joao 1:1,14). A Escritura, entretanto, testifica do Cristo do início ao fim, mas ela mesma [Escritura, bíblia], não pode ser idolatrada nem mesmo garante a salvação de ninguém (veja João 5:39-47). Mas alguns tratam a Bíblia como um deus e até mesmo maior que Jesus. Neste sentido, vale o ensinamento do apóstolo Paulo, para quem “... a letra mata, o Espírito é que vivifica” (2 Coríntios 3:6).
        2) O dízimo se tornou tão importante no meio evangélico que deixou o essencial sufocado, pois quando um infeliz está precisando de uma ajuda financeira, por estar desempregado, por exemplo, e pede ajuda para um cristão, o cristão morre de medo de ajudar o próximo com o seu dízimo, pois o medo da “maldição de Malaquias” sufoca a espontaneidade e a liberdade de amá-lo. Não vejo no meio evangélico a mesma ênfase dada ao texto de Malaquias, da Antiga Aliança, ao que Paulo diz na Nova Aliança: “se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente’ (1 Timóteo 5:8).
         O cristão está tão encantado em seguir a Bíblia que se esquece de seguir a Jesus. Pois ensinaram ao cristão que, se ele não levar “todo o dízimo ao templo”, ele corre o risco de pegar a maldição do devorador. Daí, tudo em sua casa vai quebrar, desde o brinquedinho da criança ao fogão, passando pela televisão, geladeira e tudo o mais.
         Muitos cristãos não sabem, porque não leram ou porque não foram ensinados em suas igrejas que, em Cristo, todas as maldições da Lei foram quebradas na cruz (veja Gálatas 3:13), inclusive a “maldição de Malaquias”. O que eu penso sobre isso é que o medo de perder a arrecadação é maior do que a vontade de libertar o povo desse medo, mesmo que isso implique numa contradição ao que Paulo nos ensinou no Novo Testamento. A permanência do dogma do Antigo Testamento é mais importante do que qualquer coisa, pois assim mantêm-se a “fidelidade” por meio de uma religiosidade medrosa como forma de “provar seu amor a Deus”. Desta forma, pensam eles, é melhor garantir a manutenção do sistema pelo medo do que arriscar pelo caminho do amor e liberdade. Sobre esse assunto do dízimo, certa vez alguém me acusou: “você vai destruir a igreja com essa ideia!”. Eu respondi: “o que destrói uma igreja é a falta do Espírito Santo!”.
        3) O falar em línguas é outro assunto que, de tão importante, também sufocou o essencial, pois enquanto o indivíduo não falar em línguas estranhas ele não será considerado do grupo dos ungidos, pois não recebeu o “batismo do Espírito Santo”.  Enquanto isso, esse irmãozinho é excluído da roda dos especiais. E por isso, se ele não falar logo, será considerado um crente de segunda categoria. Daí é que surgem todas as manifestações da psique humana para logo se fazer parte do grupo dos seletos. Esse indivíduo, mesmo que na marra, quer provar que é um cristão do primeiro escalão.
        4) O sábado também se tornou tão importante que até Jesus foi acusado de não ser de Deus por não guardar o sábado (veja Joao 9:16). Também o domingo é tão importante que perseguiu o sábado, e vice-versa; não se sabendo que tanto um quanto o outro é questão de consciência, como afirma o apóstolo Paulo em sua carta aos Romanos. O que se deveria fazer era não julgar e não condenar uns aos outros por causa disso (veja Romanos 14).  Paulo explica que o fraco na fé é aquele que se apega para julgar o outro por causa de dias e comidas, e por se achar mais fiel do que o outro por guardar o melhor dia. Para quem realmente entendeu o que é o Evangelho, esse tem a liberdade para qualquer dia, pois cada dia é um dia especial.
        5) O batismo, para alguns, é tão importante que pode até definir o céu ou o inferno de uma pessoa. O apostolo Paulo teve de repreender os irmãos da igreja de coríntios por se dividirem por conta do batismo (1Co 1:13-17). Ainda hoje os cristãos se dividem por causa disso. Alguns batizam com pouca água, outros com muita; alguns mergulham, outros borrifam e ainda outros só derramam sobre a cabeça. Uns batizam crianças, outros só quando adultos. Na história está registrado de que luteranos mataram batistas porque estes queriam rebatizar as pessoas mergulhando todo o corpo, então, os luteranos tiveram a ideia de afogá-los para ficarem “espertos”.  Até hoje tem grupo que não aceita o batismo do outro, mesmo entre os protestantes. Tem de batizar de novo, senão não pode participar da ceia, não pode casar, não pode assumir alguma liderança, entre outras coisas. Em muitas denominações o indivíduo só será considerado “convertido” se for batizado pelo método de sua igreja.
         Eu particularmente não consigo imaginar Jesus dizendo para uma pessoa que ela não será aceita no reino dos céus por ter escolhido o método errado de batismo. Também não consigo imaginar Jesus dizendo: “filho, eu morri na cruz por você, derramei meu sangue, mas infelizmente, por falta d´ água você será lançado fora!”. Esse Jesus do cristianismo não se parece com o Jesus das Escrituras que simplesmente dizia: “Vai, tu fé te salvou!” e também: “o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”.
       6) A doutrina de Maria, a mãe de Jesus, se tornou tão importante para os católicos que deixou o essencial rebaixado. Pode-se observar isso pela quantidade e qualidade dos louvores, cultos e festas dedicados à Maria. Observe o Rosário, por exemplo, são 153 Ave-marias, 17 Pai-Nosso, um credo. A cada ciclo do Rosário reza-se também a Salve-Rainha, as Ladainhas de Nossa Senhora e as Consagrações de Nossa Senhora. Já participei de várias reuniões católicas que em momento algum se falou no nome de Jesus. Tem-se a impressão que Jesus é limitado pela mãe. Até as frases comumente usadas no meio Católico Romano dão a entender essa dependência.
         O que é de se estranhar é por que na Bíblia a doutrina de Maria não é apresentada em nenhuma carta. Como se sabe, as 21 cartas foram escritas pelos apóstolos e profetas da Nova Aliança para dar orientação às igrejas. Estranha-se que todos eles, e até mesmo Jesus, tenham esquecido desse tema tão importante. Em certa ocasião, até Jesus corrigiu uma mulher que exaltou Maria (veja Lucas 11:27-28).
         Por outro lado os protestantes condenaram os católicos nos mesmos moldes que os judeus fizeram com os samaritanos. Vejo algo parecido entre os perfis dos fariseus e samaritanos com os atuais protestantes e católicos. Os fariseus se consideravam fieis às Escrituras e acusavam os samaritanos de idólatras por eles terem suas crenças e costumes diferentes. Hoje não é diferente. Na cabeça de muito protestante, os católicos vão para o inferno. Na cabeça de muito católico, não há salvação fora de sua igreja.
         7) A Ceia do Senhor ou Eucaristia, é outro ponto de divisão e rixas. Entre os evangélicos existe uma tensão e medo nesse ritual devido haver tantas recomendações e restrições dos líderes. Alguns proíbem até mesmo que membros de outra denominação evangélica participem. Católicos nem pensar! O que era para ser uma celebração pelo que Jesus Cristo fez na cruz, tornou-se um “perigo de morte”. Alguns fiéis, por causa do medo, evitam ter relações sexuais com seus cônjuges nesse dia, para não correrem o risco de serem punidos por Deus.
         Assim, são por causa de coisas importantes que os homens se separam, julgam, condenam, e não praticam as coisas essenciais que Jesus nos ensinou, que foi o amor, a compaixão, o perdão, a misericórdia, a fé, a esperança, a justiça. Certa vez Jesus disse que chegaria o tempo em que os homens expulsariam, perseguiriam e matariam uns aos outros achando que com isso estavam prestando um culto a Deus. E fariam essas coisas, porque não conhecem verdadeiramente nem o Filho nem ao Pai (veja Joao 16:2-3).
         Não deixe que as coisas importantes de seu cristianismo sufoquem sua alegria de servir a Jesus, com amor e dedicação ao Evangelho. Lembre-se de que servir a Jesus é imitá-lo. Com certeza surgirão críticas. Você será chamado de herege, desviado, liberal, destruidor de igrejas, entre outras coisas. Isso faz parte do pacote turístico de um discípulo de Jesus. Como mesmo disse o apóstolo Paulo: “de fato, todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Timóteo 3:12). Você será julgado por causa de coisas supostamente importantes para alguns, mas não se esqueça que o essencial é a sua liberdade em Cristo. Cristo é essencial, o Evangelho é essencial, sua obra é essencial.
         Infelizmente, muitas pessoas pensam como os fariseus da época de Jesus; coam um mosquito, mas engolem um camelo. Quando se aprende a separar o essencial, o importante e o irrelevante, acontece um milagre na vida, ou seja, ama-se mais e condena-se menos.


Lincoln Máximo Alves

Brasília-DF, Maio de 2015.